Um pouco da França

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Fonte: Flickr @brunaig
Moça mediana
com belas tatuagens
entra no fast food
e pede para transmitir sua mensagem

Deixaram-na mostrar sua arte
e logo que a percebi
senti algo especial
não era nenhuma atração amorosa
tava mais pra algo angelical

Foi na parte onde era ao ar livre
pegou sua sanfona
e começou a distribuir França
e em mim apareceu um sorriso de criança
entendendo a mensagem

Ela me fez lembrar de um lugar
no qual nunca fui
mas fez-me sentir saudade
e toda a aquela simplicidade
estava apenas no seu tocar.

Conto - Lixo, de Luis Fernando Veríssimo

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Fonte: www.veryicon.com

LIXO
  Luis Fernando Veríssimo






Encontram-se na área de serviço. Cada um com o seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.

- Bom dia.

- Bom dia.

- A senhora é do 610.

- E o senhor do 612.

- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...

- Pois é ... - Desculpe a minha indiscrição, mastenho visto o seu lixo ...

- O meu quê?

- O seu lixo.

- Ah...

- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena.

- Na verdade sou só eu.

- Humm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.

- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar .

- Entendo.

- A senhora também .

- Me chama de você.

- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim.

- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas como moro sozinha, às vezes sobra.

- A senhora... Você não tem família?

- Tenho, mas não aqui.

- No Espírito Santo.

- Como é que você sabe?

- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.

- É. Mamãe escreve todas as semanas.

- Ela é professora?

- Isso é incrível! Como você adivinhou?

- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.

- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.

- Pois é ...

- No outro dia, tinha um envelope de telegrama amassado.

- É.

- Más notícias?

- Meu pai. Morreu.

- Sinto muito.

- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.

- Foi por isso que você recomeçou a fumar?

- Como é que você sabe?

- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.

- É verdade. Mas consegui parar outra vez.

- Eu, graças a Deus, nunca fumei.

- Eu sei, mas tenho visto uns vidrinhos de comprimidos no seu lixo...

- Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.

- Você brigou com o namorado, certo?

- Isso você também descobriu no lixo?

- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.

- É, chorei bastante, mas já passou.

- Mas hoje ainda tem uns lencinhos.

- É que estou com um pouco de coriza.

- Ah.

- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.

- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.

- Namorada?

- Não.

- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.

- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.

- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.

- Você está analisando o meu lixo!

- Não posso negar que o seu lixo me interessou.

- Engraçado. Quando examinei o seu lixo,decidi que gostaria de conhecê-la . Acho que foi a poesia.

- Não! Você viu meus poemas?

- Vi e gostei muito.

- Mas são muito ruins!

- Se você achasse eles ruins mesmos, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.

- Se eu soubesse que você ia ler ...

- Só não fiquei com ele porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?

- Acho que não. Lixo é domínio público.

- Você tem razão. Através dos lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos
outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?

- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...

- Ontem, no seu lixo.

- O quê?

- Me enganei, ou eram cascas de camarão?

- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.

- Eu adoro camarão.

- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode... Jantar juntos?

- É. Não quero dar trabalho.

- Trabalho nenhum.

- Vai sujar a sua cozinha.

- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.

- No seu lixo ou no meu...





Foto Rasgada

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Olá Leitores e Visitantes....   cri cri cri
Quem aí já rasgou uma foto por nela estar contido a imagem de alguém que te magoou e te fez faz sofrer?
Adianta alguma coisa guardá-la?
Mesmo que a outra parte da foto não apareça, há algo lá. Está transparente, mas que seu subconsciente consegue ver. Aquela borda branca acessa na sua mente lembranças do dia da foto, nos ouvidos há sussurros de frases faladas naquele momento(ou antes, e até após). Pode haver até um suspiro de saudade.


Não há porquê guardar uma foto rasgada.
A borda branca ondulada está marcada
São lembranças implícitas
que fazem o coração buscar lá no fundo um pequeno vazio
que agora está sendo preenchido... ou não. (brendo vieira)

De parar o trânsito

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Fonte: depositphotos
Em casa...
Ela calçou seu tamanco
e colocou seu vestido que uma vez fora branco.
Passou umas químicas em sua cabeleira
e aparou mais uma vez as sobrancelhas...

Na rua...
Parou o trânsito
ora para ouvir caçoadas,
ora para passar na faixa de pedestre.
 

Brendo Vieira © 2010

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